terça-feira, 9 de outubro de 2018

ENRICO

Enrico é um menino muito batuta. Batuta mesmo! É igual a todos os meninos da sua idade... Pula daqui para lá, de lá para cá. Não para um segundo sequer! Ele é, também, diferente de quase todos os meninos da sua idade. Ainda bem que somos diferentes uns dos outros. Meu primo Enrico nasceu com síndrome de Down. Ele é supercomunicativo. Comunica-se com os braços, que vão para cima, para baixo e para os lados. Às vezes parece que tem mais de um par de braços, com toda agilidade com que os movimenta. Espevitado. Comunica-se sempre com um belo sorriso largo. Carinhoso. Comunica-se com o corpo. Os seus olhos azuis, quando reparam em alguma coisa, também se comunicam! Os seus avós Lourdes e João Carlos, diante de suas peraltices, correm os olhos cuidadosamente, a cada caminho traçado por ele,com medo de que se machuque. É sempre muito rápido! O que ele quer é se divertir.


Ah! Receber um abraço do Enrico com toda sua espontaneidade recarrega as energias de bons sentimentos. O seu abraço diz tantas coisas... Acolhe... Chama atenção... Pede carinho... Ensina... Como estamos precisando de atenção! Todas as crianças precisam! Até adultos precisam(e muito)! Os seus pais, Fernanda e Eduardo, cuidam de Enrico com muito amor e o defendem dos olhares atravessados. O preconceito é um sentimento de gente medrosa e fraca. Todas as crianças precisam ser defendidas pelos seus pais de forma amorosa. O castigo nunca funcionou como educação, ao contrário, deixa marcas negativas e profundas. E lá vem o meninopulando. Brincando. Sorrindo. Inteligentíssimo. Sendo motivado por aqueles que o cercam carinhosamente. Afinal, ele é só uma criança.


Os seus bisavós, Narciso e Ida, há tempo são estrelinhas. Imagino o quanto eles devem se divertir com o bisneto. Os avós, depois de um tempo, viram anjos... Pulam como criança. Sorriem como criança. Abraçam como criança. Ensinam os netos a gostar da vida. E vem Enrico, se lança no ar e cai suavemente no colo do tio Didio e da tia Ida.seus bisavós. Quem o viu voar no ar não entendeu nada. Nem tudo é para ser entendido. Nenhuma criança merece sofrer preconceito. Criança gosta de brincar.


P.S.: vi um menino outro dia com cara de anjo, em um comercial de uma loja de magazine, na televisão. Adivinhem quem era. Meu priminho, loirinho e sorridente. Brincando de modelo. Seu irmão Benício recebe cada abraço do Enrico de quebrar a costela. Protejam e abracem todas as crianças do mundo. Todas são especiais. Abracem 

terça-feira, 18 de setembro de 2018

NUNCA DESISTA... SEMPRE RESISTA!



No texto que escrevo falo sobre sonhos. Há quase um ano conheci a professora Valéria Leite na bela cidade de Recife, em uma manhã de muito calor! A professora Valéria tentava mostrar seu trabalho –que já há algum tempo queria apresentar –, realizado durante anos em sala de aula, com alunos que apresentavam defasagem de aprendizado. Incansável na tentativa de mostrar aos amigos de profissão o seu jeito de alfabetizar,recebia indiferença. Muitos opinavam sem ao menos ter lido seu projeto,mesmo com toda evidência de fartos registros de sucesso com os alunos, com seu jeito de ensinar as palavras. As autoridades que ela procurava para mostrar seu trabalho não a recebiam. Estavam sem tempo. Recebeu alguns “nãos” de subalternos e afirmativas de que esse projeto não tinha futuro.

Como alguém que trabalha com educação não sabe ouvir? Como um educador opina sobre um projeto sem ter lido? Muitas portas se fecharam para a professora Valéria Leite, na sua tentativa de mostrar seu jeito peculiar de alfabetizar seus alunos.Mesmo diante das negativas, ela não desistiu da ideia de que aquele projeto tinha que ir além da sua sala de aula. Agora, imaginem quantos projetos em escolas neste país estão acontecendo e não são vistos. Desprezados! A falta de vontade política não deixa. A burocracia burra não deixa. Muitos não querem mudar essa situação para manter seu statusquo. Privilégios. Não pensam na comunidade, pensam em si. Mesmo assim, milhares de professores não desistem! A Valéria Leite está entre esses professores.

Prestem atenção nesta história aparentemente fantasiosa, mas verdadeira. Uma amiga de Valéria contou a um amigo sobre a luta da professora para mostrar seu trabalho sobre alfabetização. O sujeito se interessou pelo projeto e disse que tinha uma pessoa que poderia ajudá-la. Aí é que eu entro nessa história. Fui a Recife conhecer a professora Valéria. Eu a ouvi atentamente por um bom tempo.Ela falava de seu projeto com entusiasmo e alegria. Os olhos brilhavam. Olhos também que umedeciam diante das recusas que recebera. Nunca desistiu.Trocamos ideias de como poderia materializaraquele seu trabalho. Aceitou algumas sugestões.Saí de Recife com a tarefa de transformar aqueles registros de trabalho em dois livros: o livro do professor e o do aluno. Vencemos a primeira etapa. Entreguei o trabalho depois de quase um ano. Foi gratificante.


                                                              Professora Valéria Leite 
P.S.: não posso me esquecer de citar a professora Fernanda Cardoso que, durante esse tempo, foi companheira de Valéria Leite nessa luta para ela ser reconhecida; também, agradecer o companheirismo do marido da professora Valéria, o senhor Valmir, que sempre caminhou ao seu lado. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

MAS MUSEU SÓ TEM COISA VELHA, PÔ

Quem não ouviu frases depreciativas em relação a museus? Ouvimos muitas! “Quem gosta de coisa velha é museu.” Talvez essafrase seja a mais conhecida de todas, mas háainda outras pérolas que evidenciamum pouco da nossa ignorância. Outra frase conhecida: “Nossa, está parecendo coisa de museu”. E assim vai... São frases que depreciam a memória e a velhice de uma tacada só!

O Museu Nacional, que se localiza na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, estava caindo aos pedaços há décadas. A última reforma, de verdade, que aconteceulá foi em 1955. As frases acima cunhadas têm sentido quando olhamos o quanto os museus recebem de verbas públicas para serem mantidos. São valores desprezíveis que desconsideram todo o valor cultural que esses guardam. Os nossos museus estão realmente velhos. Descuidados! Outros incêndios virão, com certeza, e outros museus serão destruídos.

Agora, depois da tragédia,começam a aparecer verbas que antes não existiam. Discursos velhos reaparecem com roupagem nova, até a tragédia desaparecer da mídia. Aí, tudo continua velho e caindo aos pedaços, inclusive alimentando nossa mentalidade nacional de que museu é coisa velha. Coisa velha não merece nenhum respeito. Não merece atenção.

Museus servem para educar.

Na década de 1990, levamos centenas de alunos de escolas estaduais do Estado de São Paulo para conhecer algumas cidades históricas de Minas Gerais. Estudo de campo comum grupo de professores de disciplinas diferentes e que envolvia o Ciclo do Ouro, com cada disciplina trabalhando um tema. Um trabalho sensacional. As falas de todos os guias que nos acompanhavam denunciavam o abandono dos museus e igrejas históricos de Minas Gerais. Peitorais barrocos de igrejas e casarões caindo ou pendurados diante do descaso.

Os olhos dos nossos alunos brilhavam diante das obras de Aleijadinho, em Congonhas. Brilhavam quando se defrontavam com as igrejas históricas imponentes,carregadas de memórias. Quando viajamos, além da aparência daquelas paredes antigas,descobrimos que aquilo que achávamos velho não era tão velho assim. Rica em cultura,ali,naquela estrutura,está estampada a escravidão que dizimou muitos de nós. Lá,naquelas portas, esculturas e janelas coloniais estavam estampados a ganância e o poder,conseguidos a qualquer custo. Vidas ceifadas. Se, de fato,quisermos construir uma memória nacional, não podemos continuar achando que museu é só passado e cheio de quinquilharia.

Ao visitar o Museu do Ipiranga, em São Paulo,com alunos de escolas estaduais,fomos avisados pelos responsáveis da instituição, na época, que não podíamos conhecer o jardim –o qual é semelhante ao jardim do Palácio de Versalhes –, pois poderíamos ser atacados por trombadinhas. Absurdo! Depois de tantas visitas escolares a espaços culturais e históricos, constatávamos que os alunos estavam diferentes. Estavam mudados, transformados. Viam museus e patrimônios históricos com outros olhos. Conhecimento. O “velho” era trocado pela vontade de descobrir aquele mundo que estava ali e trazia tanta informação. O fogo apaga nossa memória para sempre! Qual o próximo museu a pegar fogo no Brasil? Como faz falta educação de boa qualidade!


P.S.: “...velho é seu passado!”

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

TRÊS HISTÓRIAS DIFERENTES


Maria todos os dias levantava às três da madrugada e preparava a mesa de café para o marido, ele saía para trabalhar mais tarde do que ela. Na mesa de café deixava arrumada a comida de que eles gostavam. O filho mais velho saía bem cedo para a escola, depois do pai, de café tomado. A filha caçula dormia até mais tarde. O horário da escola era depois do meio-dia. Maria Aparecida tinha grande orgulho em ver seus filhos indo para a escola, oportunidade essa que ela não teve. Valorizava o estudo. Gente correndo atrás do seu sonho... Há anos não sabia o que era descansar no final de semana, o dinheiro extra que entrava com o trabalho de sábado e domingo era para bancar o estudo das crianças, comprar livros e outras coisas de que eles precisavam para manter a qualidade do ensino. Ela queria uma vida diferente da sua para os filhos. Ela mal sabia ler. O seu sonho era que os filhos fizessem uma faculdade. O sonho maior era o dia em que ela entregaria o diploma para suas crianças.

Maria não reclamava de cansaço...

Antes de sair, andava pela casa como se estivesse com os pés nas nuvens para não acordar o marido e ou os filhos. Dava um beijo de despedida em cada um, todas as manhãs. Religiosamente. Depois desse gesto de carinho, Maria ia para a cozinha tomar café meio amargo e comer pão com manteiga, preparados a seu gosto. Era mulher vaidosa. Trinta minutos antes de ir para o ponto de ônibus, colocava-se diante do espelho para ficar bonita. O batom discreto nos lábios não podia faltar. Os cabelos bem penteados tomavam-lhe mais tempo. Impecável. Faltando quinze minutos para as quatro da manhã saía em direção ao ponto de ônibus que ficava a uma quadra da sua casa. Aquela manhã de quarta-feira seria diferente de todas as outras.

Se ela soubesse que sua rotina seria quebrada daquele jeito, não teria saído de casa. Talvez faltasse ao emprego, algo nunca feito.

Ao caminhar alguns metros da sua casa, foi seguida por um homem. A rua era escura. Medo. Maria acelerou os passos! Poucos segundos depois, o homem caminhava a seu lado e conversava naturalmente. Mais alguns minutos, ele e ela caminhavam em sentido contrário ao seu destino. Desapareceram na escuridão da rua.

No horário em que ela estava acostumada a chegar em casa, não chegou! Passado um bom tempo o marido, aflito, o calafrio tomando conta do seu corpo, pensou que alguma coisa tinha acontecido. Os filhos choravam pensando em algo pior. Dor na alma. O marido ligou para a patroa de Maria, que confirmou que ela tinha faltado ao trabalho naquele dia. O desespero bateu nele e nos filhos. No dia seguinte, foi à delegacia e abriu boletim de ocorrência. Com os familiares e amigos, começou uma busca incansável pelo paradeiro de Maria, sem sucesso. Três dias depois o celular tocou. Uma voz forte lhe disse para comparecer à delegacia. O delegado queria falar com ele. Gelo. A imagem de uma câmara instalada em uma casa vizinha mostrou Maria caminhando com um homem com uma faca encostada em suas costas, do lado direito. O marido chorou copiosamente. Entrou em pânico ao pensar que alguma coisa ruim poderia ter acontecido a ela.

No altar, a vela de sete dias que Maria acendera à Nossa Senhora da Aparecida ainda queimava suavemente. De repente, apaga...

Mais uma estatística...

Uma semana depois, o corpo dela foi encontrado enterrado na cozinha de um homem que morava na mesma rua da sua casa. Ele tinha saído da cadeia há uma semana, onde passou alguns meses cumprindo pena por estupro e homicídio. O sonho de Maria acabou naquela madrugada fria...

Outra história...

Fernando, dias depois de completar dezesseis anos, conseguiu seu primeiro emprego. Muita felicidade. Mesmo antes de receber o primeiro pagamento, já fazia planos de comprar a roupa dos seus sonhos. Comprar um celular da hora. Comprar um tênis legal. Sonhos... Fernando não cabia em si! À noite, na escola, comentava com os amigos sobre o emprego. Falava desse mundo novo com entusiasmo. Planos. Quando terminasse o ensino médio, faria uma faculdade. A empresa dava oportunidade para quem estudasse. Vibrava! Em alguns casos ela até mesmo ajudava a bancar parte dos estudos. Fernando se destacava entre os amigos da escola pela amizade sincera. Um menino educado. Um sorriso maroto. Namorava Marisa e, depois do trabalho arrumado, já falava em casamento.

Tempos depois, de roupa nova e celular bacana, Fernando e um amigo caminhavam para o ponto de ônibus ao fim de um dia de trabalho. Alegre, ele falava, gesticulando, sobre seus projetos de vida... Conversava de futebol também, um papo descontraído sobre o time do coração. Sem que eles percebessem uma moto se aproximou com dois ocupantes que, aos gritos, com arma em punhos, dizem: “Perdeu! Perdeu! Perdeu! Passa o celular, babaca. Passa tudo, filho de papai!”. O amigo de Fernando entregou o tênis e Fernando não hesitou em nenhum momento em entregar o celular. Ele sempre foi muito tímido e, com o nervosismo pela cena de violência, esboçou um sorriso trêmulo no canto da boca. O carona da moto, irritado, aos gritos, diz: “Você está me tirando, meu!”. Ele atira no rosto de Fernando, que cai no chão. O amigo, desesperado, corre em busca de ajuda. Os bandidos saem com a moto em alta velocidade como se nada tivesse acontecido.

O Samu chega quinze minutos depois do ocorrido, dando os primeiros socorros. Encaminham Fernando para o hospital mais próximo, aonde ele chega com vida, ainda! Há esperança. Horas depois, a notícia que ninguém queria ouvir, o jovem foi a óbito. A família chora desesperada. A mãe, aos gritos, pergunta a Deus: “Por que meu filho?”.

A última história...

Amor eterno. Uma festa de casamento luxuosa. Mais de mil convidados. Diziam que eram almas gêmeas, que um havia nascido para o outro. Que casal lindo! Maravilhoso. Mariana e Roberto se conheceram em uma festa na casa de uma amiga. Ele, com um bom emprego e rico. Ela, advogada e bem de vida. Financeiramente. Em menos de um ano se casaram. Em nome do amor ele queria que ela deixasse a profissão liberal que exercia. Ela hesitou no início e, depois, deixou de trabalhar para atender o desejo do marido. Tudo em nome do amor.

Com o tempo, ele começou a chegar tarde em casa. Ela, em silêncio, resignada, queria apenas ser feliz. Acreditava piamente no amor perfeito.

Um dia, na casa de amigos, em um churrasco de domingo, ele começou a duvidar da sua fidelidade. Sem que ela compreendesse o porquê, ele a acusava de estar “dando bola” para o marido da amiga. Mariana ficou em silêncio para evitar escândalo, não entendia o motivo daquele ciúme doentio. Ela se dedicava inteiramente àquele casamento. As brigas se multiplicaram. O sorriso de alegria do início (que deixava muitos casais com inveja) foi trocado pelo rosto fechado. O andar com o olhar voltado para o horizonte, agora rumava para o chão. Em uma tentativa frustrada quis falar sobre a crise do casamento. Ele foi rude e disse, aos gritos: “Tem que ser do meu jeito! E nem pense em se separar de mim. Não seja nem louca em me deixar. Você não sabe do que eu sou capaz!”. Diante da agressão verbal, ficou paralisada. Um dia Roberto chegou em casa e disse: “Você não presta pra nada mesmo!”. Que mudança aquela nele. O seu mundo desabou. O sapatinho de cristal de cinderela naquela noite trincou. Sem que ele percebesse, ela arrumou as roupas e foi para a casa da mãe. Envergonhada.

Lá, com sua mãe, não teve coragem de dizer o que acontecia em sua casa. Sentia-se profundamente humilhada. Culpava-se pelo fim do casamento. Os pais sentiam que alguma coisa não estava bem e escolheram a discrição como apoio. No dia seguinte, decidida, saiu bem cedo para recomeçar sua vida. Com o rosto maquiado e bem vestida, ao dar o primeiro passo naquela manhã para atravessar a rua, foi atropelada por um carro em alta velocidade. Seu corpo foi arrastado por cem metros. No enterro, o marido chorava e lamentava a morte da mulher. O amor da sua vida. Mas sua máscara não demoraria a cair...

Uma semana depois da tragédia, os policiais que investigavam o caso de Mariana descobriram que o carro que a atropelou era de Roberto. Outra prova consistente contra ele: o atropelamento estava gravado na foto tirada pelo radar inteligente. Não havia nenhuma dúvida de quem era realmente o criminoso. Antes das provas, Roberto tinha sido ouvido pela delegada e saído pela porta da frente da delegacia. Desapareceu depois de provada sua culpa pela morte da esposa. Ele ainda não foi encontrado. Livre. Um final trágico.

Tantas outras histórias que não serão contadas e nem sequer choradas.
      

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O SÍTIO


O sítio da matinha da Viúva, em Votuporanga, não era um lugar tão distante da cidade,fazia divisa entre o mundo urbano e o rural. O progresso estava avançando e a cidade começava a engolir o mundo rural, lentamente. As luzes dos postes de madeira, que ao cair da noite ficavam distantes, com o passar dos anos foram se aproximando. A escuridão que dividia esses mundos foi diminuindo, aceleradamente. Com o tempo não sabíamos quem era quem nessa evolução. Tudo foi se misturando. Adorava morar naquele sítio. Um lugar bucólico. Cheio de vida. Ele não existe mais, agora é um condomínio de luxo. Ergueu-se uma casa maior do que a outra.

Antes do progresso, o sítio era assim:

Lá onde morávamos não tinha energia elétrica.Escuridão. Confesso que tinha medo quando começava a anoitecer. Apesar disso, a noite estimulava a imaginação.Foi nessa época que aprendi, sem querer, que podia brincar com as sombras, usando as mãos e a fumaça que saía do fogo da lamparina a querosene. Foi nesse dia que descobri que,colocando uma das mãos diante do fogo e da fumaça negra da lamparina, apareciam sombras na parede da velha casa. Coisa de criança.Achava aquela descoberta inédita. Os olhos brilhavam. No princípio me assustei com aqueles movimentos na parede, logo percebi que vinham das minhas mãos. Foi só alegria. Incrível! Cada noite inventava uma história para dar vida às sombras. Criatividade.

Com as mãos fazia desenhos de pássaros. O bico de um tucano. O voo de um papagaio... Fascinavam-me aquelas sombras que se transformavam em desenhos. Pareciam ter vida. O movimento dos braços se contorcendo, imitando uma cobra. Fantástico. Ficava ali, criando imagens que faziam parte do meu mundo. Horas e horas... Sonhava... Da janela da casa avistava bem longe as luzes da cidade. Os meus olhos corriam um tempo escuro até chegar às luzes. Imaginava como seria morar naquele lugar iluminado. Aos poucos fui descobrindo... Logo fiz amizade com os meninos do mundo da luz, nunca esperava escurecer para ir para casa. Tinha medo de assombração. Com o tempo fui perdendo o medo e transitando com maior facilidade entre o mundo da luz e o do escuro.

Tive uma infância recheada de encantos...

Lembro-me das manhã sem que minha mãe, bem nova, saía de casa para estudar.Bonita.A roupa era impecável. Uma camisa branca feminina. Uma saia cinza que ia até o joelho, meias brancas de colegial e sapato preto. Ao sair ela anunciava todos os cuidados que eu deveria tomar.Minha mãe fazia o curso de magistério. Hoje ela é professora aposentada. Meu avô: há uma lembrança nítida do meu avô Amadeu furando um poço no sítio. Não tinha água encanada. No final da década de 1970,o país foi acometido por surto de meningite e um agente de saúde, em visita ao sítio, tentava convencer meu avô a tomar vacina. Ele estava reticente. Não lembro se ele foi vacinado. Meu avô era uma pessoa introspectiva. Sempre me aconselhava sobre os caminhos que deveria trilhar na vida. Sempre sensato. Sempre fui uma criança “da pá virada”. Risos.

Ainda sobre a lamparina...
            
Quando demorava a pegar no sono e, às vezes, com medo da escuridão, fixava os olhos na luz da lamparina e aos poucos o sono ia chegando. Às vezes os olhos iam se fechando lentamente bem junto com a diminuição da claridade da luz da lamparina.

O que gostava mesmo nesse sítio era o dia de cozinhar (fritar) a carne de porco no tacho no fogão a lenha. Durante meses engordava-se um porco até ele ficar imenso. No dia de matar o porco, os vizinhos apareciam para ajudar. Os primos apareciam... Era uma festa. Uma alegria só... Depois de cozido, os pedaços do porco eram divididos em latas de banha para conserva e consumo durante o ano. Geladeira não era comum e nem todo mundo podia ter uma. Eventos como esse criavam um vínculo forte entre amigos e parentes. No final, fazia-se a divisão da carne e os participantes levavam um pedaço. Ninguém saía de mãos vazias. Sobre o bicho-de-pé conto outro dia.

A lamparina, de novo...

Lembro-me muito bem de minha mãe avisando, delicadamente, para ter cuidado ao me aproximar da pequena lavareda de fogo que saía da lamparina, para não sofrer nenhuma queimadura ou ficar com o rosto preto de fumaça. Foram incontáveis as vezes em que meu rosto ficou marcado com a fumaça escura da lamparina. A primeira vez que fui ao cinema, rapidamente associei aquelas imagens projetadas na grande tela com as sombras que construía nas paredes de casa. Durante muito tempo achei que as sombras da lamparina tinham dado origem ao cinema.


P.S.: sobre a matinha da Viúva, ainda tem muita história a ser contada. Aguardem!

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Carta de apoio aos servidores públicos de Cotia


O Servidor Público de Cotia está em greve: o prefeito se recusa a conversar com a comissão eleita pelos funcionários. Neste momento é sensato que o Prefeito Rogério Franco abra a possibilidade do diálogo. Essa postura do prefeito, neo-caudilhista, é contraditória com a palavra “gestão”, que ele usa frequentemente em seus discursos. Abra o diálogo, Prefeito!O descontentamento dos servidores é com esse “projeto”, que mexe com direitos trabalhistas adquiridos. Ele é desastroso para a carreira do funcionalismo.

O argumento de que esses direitos pesam no orçamento da prefeitura e inviabilizam realizações de projetos para a cidade, no presente e no futuro, não se sustenta. Se essa administração quer de fato uma reforma para viabilizar seu projeto de governo com seriedade, que comece fazendo uma revisão de todos os contratos de fornecedores da prefeitura. Faça uma revisão em todos os imóveis alugados pela prefeitura, alguns imóveis ficaram muito tempo sem serem utilizados. Reveja a contratação de comissionados, com altos salários, fora do normal. Altíssimos!Nenhuma reforma pode começar sem transparência.

Os Servidores Públicos de Cotia estão indignados com razão. Esse projeto é esdrúxulo, mas mesmo assim foi chancelado por todos os vereadores da Câmara Municipal de Cotia(!). A tentativa de implantar esse projeto não é de hoje. O prefeito anterior, Carlão Camargo, enviou um projeto semelhante e a Câmara Municipal rejeitou. O Prefeito Rogério Franco enviou esse mesmo projeto do Carlão, repaginado, e a Câmara Municipal em um primeiro momento rejeitou novamente. Foram três tentativas, considerando o ex-prefeito e o atual, e na terceira o projeto foi aprovado por unanimidade. Ninguém ficou contra. O que aconteceu?

Nesse conflito de interesses o que é triste de ver é o jogo do prefeito, colocando os moradores da cidade contra os Servidores Públicos. Gesto nada republicano! Os Servidores Públicos são extensão do prefeito. São aqueles que ajudarão a colocar seus projetos em prática. Esculachar o servidor público nas redes sociais não é um gesto de quem quer fazer mudanças com seriedade. Expor os servidores como se eles fossem arruaceiros e vagabundos é uma enorme falta de respeito, e é contraproducente. Transparência não é melhor, Prefeito? Agora é hora de a comunidade ficar do lado do funcionalismo, que a cada prefeito que passa continua ali, prestando serviços.Às vezes sofrendo sob o jugo de péssimos administradores. Esse funcionalismo, formado por servidores que atendem no posto de saúde,atendem seus filhos em uma sala de aula,atendem e salvam sua vida diante de uma tragédia, merecem sua solidariedade. 
Professor Marcos Martinez



sexta-feira, 20 de julho de 2018

CASA DA RUA CEARÁ


 Morei em Votuporanga até os 15 anos de idade. Nesse tempo, morei em vários bairros e casas, cada um deixou sua marca na minha infância. Cada um deixou marcas para sempre... O lugar que mais deixou marcas na minha criancice foi a casa da rua Ceará. Uma casa diferente das outras. Ela tinha um quintal imenso, brincávamos muito nesse quintal. Subíamos em árvores. Jogávamos bola. Brincávamos de salva-pega e tantas outras brincadeiras de criança. Era um quintal encantado. A cada dia o imenso quintal apresentava uma novidade.

A casa da rua Ceará era antiga e os tijolos eram grandes. Uma casa velha. Parecia feita de tijolos de barro. Sempre achei que a casa fosse assombrada. Com o passar do tempo, ela se revelaria assombrada...A casa tinha vida!Parecia ter memória. O banheiro era fora da casa – algo incomum nos dias de hoje. Os quartos eram enormes. Escuros!Na frente da casa,um belo jardim. As janelas eram pintadas de azul e as paredes de branco. Uma casa formosa. O telhado era de quatro chuvas. A casa ficava no canto direito do terreno. Parecia muito com casa de fazenda,mesmo sendo dentro da cidade. Adorava morar nessa casa. Era aconchegante. Depois que mudei de lá, parecia que estava faltando alguma coisa...Saudade. Até hoje, guardo-a em minhas lembranças.

Entenda porque o quintal de lá era encantado: tinha dez pés de laranja pera,doces e saborosas. Uma enorme mangueira de manga espada. Aquela que tem fibra. Deliciosa. Pé de pitanga. Um pé de jabuticaba. O quintal parecia o Éden. Conhecíamos as estações do ano – verão, outono, inverno e primavera –,conforme cada fruta aparecia,cada flor florescia. Sabíamos que aquela fruta ou flor era daquela determinada estação. Aquele quintal era uma escola. Era um lugar de aprendizagem. Ainda de calça curta, ganhei um canivete com bainha para descascar laranja e outras frutas. A vitamina C estava ali, bem pertinho. Tantas outras vitaminas... O pé de pinha era uma delicadeza. Adorava tudo ali. Na primavera, o jardim, com dezenas de flores, enchia os olhos. A casa da rua Ceará era abençoada.

Meu pai viajava muito a trabalho. Eu e minha mãe ficávamos sozinhos. Tinha meu quarto e a janela ficava na frente da casa,fazendo vizinhança com o belo jardim. A minha mãe dormia em um quarto ao lado esquerdo da casa. Uma noite, depois de deitar,ouvi um barulho de algo que se arrastava pelo chão. Achei que poderia ser um bicho ou uma barata. O barulho continuava insistentemente.Medo. A minha respiração começou a ficar ofegante. O barulho aumentava. Ansiedade. Tirei o cobertor que cobria a cabeça e fui investigar de onde via aquele barulho, lentamente. Cuidadosamente. Virgem Maria!Levei um baita susto, em menos de um segundo estava na cama de minha mãe aos gritos. O que aconteceu? O meu sapato, que ficava ao lado da cama, estava se mexendo. Movimentando. Eles estavam juntos e começaram a se afastar um do outro.


P.S.: apesar dessas coisas de assombração, adorava aquela casa. Eu sentia que as paredes tinham ouvidos. A casa tinha movimento e, com certeza, tinha muitas vidas. Aprendi tanto com ela!Outro dia fui visitá-la e, no lugar, construíram um imenso hotel chique!Assassinaram minha casa da rua Ceará com memória e tudo!