quarta-feira, 24 de abril de 2019

UMA CENA DO COTIDIANO...



Na Avenida Moaci, travessa da Avenida Ibirapuera, o farol fecha. Aproxima-se uma menina do lado do motorista,de uns seis anos, oferecendo saquinho de bala a dois Reais. Em uma ação bem rápida, o farol fica amarelo, ela passa pela frente do carro toda serelepe,e vai até a calçada do lado direito.Uma moça bem jovem e bem vestida está à sua espera, pega as moedas e as coloca em uma mochila.O farol fecha novamente e a criança volta para sua rotina diária e cansativa. A moça que recebe o dinheiro não esboça um sentimento sequer.Nenhum afago ou um sorriso...

terça-feira, 12 de março de 2019

OBSESSIVO

A fila para entrar no cinema do shopping estava tão imensa que dobrava a esquina. Não gosto de fila de jeito nenhum, principalmente quando é grande demais, porque fila grande me angustia, tenho pavor, tenho vontade de sair correndo, tenho vontade de gritar e acabo entrando em pânico – quando criança, era colocado de castigo, com meus amigos de escola, em fila, um olhando para a nuca do outro,tínhamos que ficar em silêncio e se não ficávamos o castigo era dobrado.As pessoas, em filas muito grandes, falam demais e fofocam o tempo todo.Deveriam ficar em silêncio, como na escola, porque elas falam aos gritos e se acham melhor do que os outros; ninguém é melhor do que o outro e se você se considera melhor do que o outro, você é um grande...

Depois de desistir da fila do cinema – que estava grande demais – rumei para o restaurante. Ao avistá-lo levei um baita susto, fiquei todo arrepiado da cabeça aos pés, porque a fila de espera era grande demais e o ambiente, escuro.Lembrei-me do dia que fiquei preso no quarto escuro da minha casa – adultos,quando querem castigar uma criança,colocam-na em um lugar escuro; alguns adultos são insensíveis talvez porque, quando crianças,tenham sido colocados em um quarto escuro, assim como fizeram comigo. Juro que não consigo entender a relação entre o quarto escuro e a fila grande demais...

Nesse dia não deveria ter ido ao shopping de jeito nenhum, minha namorada me largou sozinho, tentei esconder dela o fato de que tinha medo de fila e de escuro e não consegui.Ela, que não é boba, percebeu;senti-me um fracassado, mas, como se não bastasse esse abandono no cinema, também tinha a fila grande e a sala escura e,nesse ínterim, deu-me vontade de ir ao banheiro.Imaginem quando fui ao banheiro o que aconteceu:ao entrar não havia fila e não estava escuro, porque tinha que acontecer o que aconteceu comigo.Quando estava saindo,a fila para entrar tinha ficado grande demais em poucos minutos e,para piorar, acabou a energia.Fiquei inerte por um bom tempo dentro do banheiro. Imaginem se essa fila grande estivesse ali antes de eu entrar, teria feito xixi nas calças.




terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

MANDRAKE ENTRE AS MÚMIAS E A ESPIONAGEM



Quem nesta vida já não leu um gibi ou uma tirinha de jornal? Quem nunca leu, bom sujeito não é! Não deve ter imaginação nenhuma... ainda há tempo, leia!

Saindo dos horrores deAuschwitz, entrei de cabeça na leitura das aventuras do mágico Mandrake e seu parceiro Lothar. Mandrake é um herói do tipo “bom moço” – comportado. Lothar, um escudeiro leal. Pau para toda obra,com poderes simples e diferentes dos heróis de hoje. A principal arma do ilusionista é a hipnose, a qual usa para obter a verdade dos malfeitores. Eles não resistem ao olhar hipnotizador de Mandrake, entregam rapidinho todo o jogo maléfico. As tiras diárias de Mandrake começaram a ser publicadas na década de 1930. O criador do personagem foi Lee Falk...Recebi de presente do Edílson (meu amigo livreiro, um vendedor de sonhos) um almanaque com duas histórias do extraordinário Mandrake: “Mandrake entre as múmias” e “Fábrica de boatos”. Boas histórias. Não sei se as crianças ainda colecionam gibis – talvez, hoje, tenham recebido outros nomes.Eu e meu samigos colecionávamos gibis e fazíamos trocas daqueles que não tínhamos. Essa troca de gibis era um momento de diálogo e convencimento. Alguns amigos com mais dinheiro vendiam seus gibis a preço de ouro (risos). O interessante do gibi é que ele despertava a leitura,mesmo que sua intenção não fosse essa. A primeira história leva o leitor a um passeio pelas pirâmides e os mistérios do Oriente. Um tempo tão diferente e distante da nossa cultura. “Fábrica de boatos” vem carregada de um viés ideológico– viés ideológico agora é moda! Mandrake tem a missão de descobrir, para o governo americano,boatos falsos espalhados por um centro de nazistas infiltrados no país, para desmoralizar os soldados que estão no front da Segunda Guerra Mundial. A intenção dos nazistas é criar confusão e confundir os americanos,colocando a tropa americana em descrédito. Mandrake e seu ajudante Lothar são imbatíveis. Desvendam a fábrica de boatos nazista e seu QJ e ganham a luta. Muita emoção. Vale a pena ler.

P.S.: outra habilidade do ilusionista Mandrake é se tornar invisível. Os inimigos ficam desorientados diante de tal poder.




sábado, 16 de fevereiro de 2019

NADIR BUARES: UM ADEUS...

Esta semana foi de notícias tristes, com a partida de gente querida... neste sábado chuvoso e nublado, recebi a notícia que minha amiga Nadir Buares faleceu. Uma mulher além do seu tempo, determinada em suas posições políticas quando se tratava da defesa dos direitos fundamentais da vida. Uma forte ligação com a Igreja Católica no final da década setenta e em oitenta militou bravamente na organização das sociedades de base em Cotia,enfrentando preconceito, incompreendida por ser mulher e pela sua atuação política.  Estivemos em muitas lutas juntos. Uma mulher corajosa! Esteve à frente da fundação e da organização do Conselho Tutelar de Cotia. Militou ativamente durante anos e salvou muitas vidas dos descaminhos da droga e da violência familiar. Uma mulher extraordinária. Com ela se construiu uma parte da democracia brasileira. Nadir, a sua luta ainda não terminou.Neste exato momento você faz parte do exército de anjos que defendem a paz. Deus, o senhor está recebendo uma mulher ética e a serviço do bem. Saudades... 





MEMÓRIAS DE COTIA E OUTRAS CONVERSAS: PRIMEIRA LEITURA DOANOGanhei de presente de Natal...

MEMÓRIAS DE COTIA E OUTRAS CONVERSAS: PRIMEIRA LEITURA DOANO
Ganhei de presente de Natal...
: PRIMEIRA LEITURA DO ANO Ganhei de presente de Natal uns livros do meu amigo Edilson , livreiro e morador de Curitiba (livreiro é uma ...

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

BRUMADINHO: VOZES QUE PEDEM SOCORRO


Àqueles que usam as redes sociais para criar fake news sobre uma tragédia que causa tanta dor, registro minha indignação. O mundo precisa de gente decente. 

As montanhas das Minas Gerais choram seus mortos... Aconteceu um crime.Após o rompimento das barragens na cidade de Brumadinho (leiam: Vale), os moradores se perguntam quando acontecerá a próxima tragédia. Quando? Nas ruas de Brumadinho uma senhora de cabelo branco, atônita,caminha em busca do sobrinho que tinha um apreço como se fosse seu filho. Ela chora copiosamente e tem a esperança de que ele pode ser encontrado ainda com vida. Ela não encontrará seu sobrinho com vida. Infelizmente.

Os bombeiros deslizam solitários sobre a lama vermelha em várias tentativas na busca de sobreviventes. Salvam vidas. Nessas tentativas incansáveis também encontram corpos e mais corpos. Não desistem. Cada corpo encontrado tem alguém esperando...tem uma história. Nessa hora, qualquer ajuda é bem-vinda, de qualquer lugar do mundo. Os rios próximos e mais distantes das barragens agonizam. Os ribeirinhos perguntam o que será das suas vidas com os rios visivelmente mortos. Catástrofe.

Uma senhora com sotaque acentuado no jeitinho mineiro de falar não têm mais esperança de encontrar o marido vivo.Reclama a presença do corpo para enterrá-lo com dignidade e decência. Dos seus olhos saem rios de lágrimas. Os moradores de Brumadinho vitimados se desesperam diante da falta de informação. Parece que a Vale os trata com pouco caso. Desumanização.

Esquecemos nossas tragédias rapidamente: Boate Kiss, a tragédia de Mariana (Leiam: Samarco), o prédio em São Paulo que desabou sobre seus moradores, os morros que desabaram sobre seus moradores na cidade do Rio de Janeiro. Os filhos choram a morte dos seus pais,os pais choram a mortes dos seus filhos. E a justiça anda lentamente. Em alguns casos parece que o crime compensa. Mas são vidas humanas!

Os processos seguem esquecidos nas gavetas dos tribunais. Andam a passos de tartaruga. Os responsáveis pelos crimes sabem da lentidão da justiça. Sabem que a justiça está do lado de quem tem poder econômico. Pagam bons advogados. A vida humana pouco importa para eles. Importam-se muito mais com os recursos que a legislação permite,que evita que eles paguem indenizações. Os processos são empurrados lentamente com a barriga. Enquanto isso, em Brumadinho, centenas de crianças neste exato momento pedem a volta dos seus pais. Choram.

A copeira da diretoria da Vale denuncia veementemente que eles sabiam que um acidente poderia ocorrer. Ela ouviu a conversa de alguns diretores para burlar a legislação. Quem tem que fiscalizar não fiscaliza. Corrompe-se. Samarco e a Vale financiaram partidos políticos e candidatos em todas as esferas. Mancham o nome das cidades onde estão instaladas. Lucro a qualquer custo. Existe tecnologia avançada para minimizar o impacto ambiental. Não usaram novas tecnologias a tempo, pois o custo é maior. Desumano. Como ficam os moradores desta região diante dessa tragédia?

Que se faça uma homenagem justa aos bombeiros e voluntários que estão trabalhando muito além dos seus limites. Uma homenagem justa para os voluntários que recolhem e cuidam de animais. Estes são heróis de verdade.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

PRIMEIRA LEITURA DO ANO

Ganhei de presente de Natal uns livros do meu amigo Edilson , livreiro e morador de Curitiba (livreiro é uma profissão em extinção, mas resiste bravamente ao tempo). Sempre quando me visita, traz livros (considero mimos) de todos os gostos e presenteia minha família. Um gentleman. O livro com que fui presenteado trata de tolerância e intolerância, um assunto atual,embora essas duas palavras acompanhem toda a humanidade...Uma das leituras era uma reflexão sobre o Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau. Li o livro de cabo a rabo...Comovente. A escritora, Eva Schloss, relata o tempo em que passou no Campo de Concentração Auschwitz-Birkenau, com sua família – exemplo de resistência. Não pense que é uma leitura tenebrosa ou mesmo deprimente, mas sim uma experiência de vida que deve ser compartilhada,vivenciada por aqueles que não estiveram em um campo de concentração e, também, por quem sofre algum tipo de preconceito. Deve ser lido por aqueles que, inconsciente ou conscientemente,espalham intolerância e ódio. Eva Schloss descreve com delicadeza e transparência o antes e o depois do nazismo na Alemanha e na Europa. Uma retomada pela vida extraordinária e a militância ao contar sua história... A intolerância leva a atitudes irracionais e inimagináveis sobre a integridade humana.Leiam. Afinal, como queremos viver? Uma boa leitura!

Obs.: já estou viajando em outro livro pelo Oriente, nas aventuras do Senhor Mandrake. Aguardem!