sábado, 24 de novembro de 2018

ESTÃO ASSASSINANDO NOSSOS JOVENS...


É difícil aceitar a morte de alguém que guardamos afeto em qualquer idade. Imagine de um jovem! Um pai que tem um filho morto violentamente sente todas as dores do mundo. Uma mãe que tem um filho morto violentamente sente a dor do parto. Os pais que têm um filho morto prematuramente, de forma brutal, morrem lentamente. Quando assistimos a um jovem sendo morto a pauladas pela torcida adversária sem qualquer piedade, nos indignamos. Ele tinha uma vida pela frente! Pensamos. Ele ou ela poderia ser um médico. Poderia exercer qualquer outra profissão. Tinham tempo para isto. Poderia ser um bom pai. Poderia ser uma boa mãe. Tempo. O tempo foi encurtado por um psicopata. O tempo foi encurtado por um bando de psicopatas. O que dói é saber que tinham uma vida pela frente.

Quantos pais lamentam a morte de seu filho, que aconteceu de forma trágica. Quantos pais neste exato momento lamentam com a voz embargada e o choro doído, dispostos a estar no lugar do filho! Suplicam a Deus uma explicação. Por que, meu Deus? Os nossos filhos saem de casa para baladas e festas e não voltam. Ficamos em casa com uma angústia que vai aos poucos alterando nossos sentidos. Boca seca. Insônia. Uma sensação de que alguma coisa ruim pode acontecer. Uma sensação de que algo ruim já aconteceu. Intuição de pai e de mãe não falha. Tem gente neste mundo que não gosta de juventude. Mata por amor. Quem ama não mata. Mata porque tem o outro como posse, como se fosse um objeto. Mata covardemente. Mata por causa de um celular. Quantos sonhos aniquilados, violentamente...

Quantos pais neste exato momento abraçam a roupa do filho que partiu brutalmente. Para sentir o cheiro. Não se desfazem dos pertences do filho para sentir sua presença. Para lembrar com saudade do filho que não volta mais! Criamos nossos filhos em uma redoma. Protegemos para que não sofram. Esquecemos de dizer que no mundo real existe gente boa e ruim. As drogas estão matando nossos filhos. Pedófilos e estupradores estão soltos. Os pais são responsáveis pela educação dos filhos, sim! Mas o Estado tem que proteger a vida dos nossos filhos. Todos os dias matam os nossos filhos. Um dia é bala perdida outro é atropelamento. A nossas filhas estão sendo assassinadas todos os dias. Viram apenas estatísticas. Os números são frios. A vida é quente. A vida não pode ser encurtada dessa maneira. A vida foi concebida para ser vivida por inteiro e com intensidade.

Os programas sensacionalistas adoram colocar nossos filhos mortos violentamente. Dá ibope! Fazem do sofrimento da família uma novela. Exibem incansavelmente a tragédia. Desrespeito. Insinuam. A dor de um pai quando perde seu filho lateja para sempre na sua alma. A dor de uma mãe que concebeu seu filho e o vê morto violentamente a faz sangrar todos os dias. A legislação é omissa. Desumanização. O consumo cego e exagerado não pode valer mais que a juventude. É preciso urgentemente defender um Manifesto pela Vida!

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

TOTEM ELETRÔNICO




Ao chegar ao aeroporto de Cumbica, no início de uma madrugada, deparei-me com dezenas de totens eletrônicos e centenas de pessoasdigladiando-se com eles. Uma loucura! Corri os olhos desesperados no amplo ambiente com a intenção de localizar um atendente, mas não encontrei. O desespero aumentou... Ao lado dos totens, um rapaz atendia simpaticamente as pessoas angustiadas postadas emuma fila imensa,para tirar dúvidas de como usar aquelas maquininhas esquisitas. Até mesmo estranhas! O atendente dizia “... senhores ou senhoras”, com a maior tranquilidade do mundo, diante dos rostos apreensivos dos viajantes que desejavam fazer o check-in,“coloquem a mão no visor do totem e sigam o procedimento... Ele vai indicar aos senhores os passos seguintes”.Foi a mesma coisa que não dizer nada. Absolutamente nada! Para esconder minha ignorância, fiz de conta que tinha entendido tudo sobre aquele monstro eletrônico, bem ali na minha frente. Juro que passou uma vontade quase incontrolável de chupá-lo (rs).

Toquei o dedo no visor do totem e ele indicou o procedimento seguinte... Fiquei mais confuso ainda. Não entendi quais os passos que deveriam ser dados diante daquela tela toda colorida,para realizar o tal check-in. Quando você não consegue pensar, o corpo padece. Fiquei com as mãos geladas e suando pra caramba com medo de perder o voo.Bateu uma sensação de incompetência,achando-me o maior ignorante da face da terra. Mesmo assim não desisti! Disfarçadamente voltei para o final da fila e fiquei prestando atenção como as pessoas faziam o check-in. Muitos viajantes voltavam ao atendente do lado e pediam auxílio. Alguns pediram auxílio várias vezes... E a fila ia aumentando a cada minuto. O horário do embarque estava chegando. Desespero total. Eu olhando atentamente... Um viajante,com cara de adolescente, em menos de dois minutos fez seu check-in com a maior facilidade. Com os pés nas costas. Pensei em pedir ajuda para aquele jovem, mas fui contido pela vergonha e pelo orgulho! Imagine que eu mostraria meu analfabetismo tecnológico daquela forma. Nunca! Ilusoriamente, queria manter minha dignidade, mesmo com a possibilidade de perder a viajem para Andaluzia (rs).

Faltava pouco para, novamente, tentar,com sucesso ou não,o check-in. Desolado, imaginava que perderia aquela viagem fascinante por culpa da tecnologia. O suor tomara conta de todo o corpo, deixando a camisa encharcada. Não conseguia respirar direito. A falta de ar no cérebro deixa qualquer um quase imobilizado. Não estava sozinho nesse sofrimento!Atrás de mim uma senhora já tinha entrado pela terceira vez na fila. O seu semblante era de humilhação. Um rosto com semblante apavorado. Pensei, com certa irritação,“imagina que vou deixar essa máquina esquisita me vencer”. Jamais! Chegou a minha vez... Quando levantei a mão para colocar o dedo na tela do totem eletrônico, uma voz angelical disse “o senhor está precisando de ajuda?”. Sim! Sim! Sim! A atendente educadíssima em poucos segundos resolveu o sofrimento que me afligia há quase uma hora. Aquele sentimento de alívio e incompetência, ao mesmo tempo, desapareceu. A senhora atrás de mim na fila era só alegria. Embarquei pensando na volta.Quando chegasse em casa, teria uma aula com minha filha de 11 anos sobre como mexer com esses monstrengos eletrônicos (rs).

P.S.:na próxima viagem gostaria de encontrar mais gente de carne e osso para ajudar meu analfabetismo eletrônico.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

VOVÓ CATARINA

Erigi um monumento mais duradouro que o bronze, 
mais alto do que a régia construção das pirâmides
que nem a voraz chuva, nem o impetuoso Áquilo 
nem a inumerável série dos anos,
nem a fuga do tempo poderão destruir.

                                                                                                                             Horácio
                                                                                                                          
Escrever o livro Memória & Imagem foi um grande presente, na medida em que me possibilitou revelar a memória de antigos moradores de Cotia. Memórias que, com o passar do tempo, estavam sendo esquecidas. Desaparecendo.Ao entrevistar esses moradores antigos,a memória de cada um deles trouxe novidades quase apagadas e desconhecidas dos novos moradores que vieram de todos os lugares do mundo aqui morar. Dona Oscarlina Pedroso Victor,com as fotos antigas nas mãos delicadas ia tecendoum mosaico das histórias desses moradores. Nesse mosaico cheio de sentimentos, apareceu a vovó Catarina, moradora da Granja Vianna. 



Ao descobri-la nesse mosaico de vidas,fui ouvi-la.Fui conhecê-la. Fui recebido por uma “velhinha” generosa...Aquela senhora de cabelos brancos e um sorriso solícito,e, sem cerimôniaalguma,foi tecendo seu mosaico danossa cidade. Um mosaico carregado de encanto.Antes de falar da Granja Vianna e de Cotia,lembrou-se do marido,companheiro de uma vida... Os olhos lacrimejaram. Frisou o amor à família. Uma senhora de sensibilidade incrível. Com gestos elegantes, serviu um café, bolachas e um delicioso pedaço de bolo e iniciamos a conversa.

Aos poucos ela foi falando das dificuldades que enfrentou ao lado do marido, José Felix de Oliveira. Lembrou emocionada de quando chegaram à fazenda do senhor Niso Vianna. A cada pincelada no passado trazia à tona uma diversidade de casos. A cada momento fisgado da memória trazia uma história. Ela e o marido estendiam um lençol branco na frente de sua casa e exibiam filmes em preto e branco. Juntava gente dos quatro cantos da cidade: Cotia, do Morro Grande e Caucaia do Alto e outros. Com aquele sorriso gostoso de ver e ouvir, revelou timidamente que, nesses encontros, saíram namoros e casamentos.

Durante anos, a vovó Catarina foi inspetora da Escola da Granja Vianna (hoje, Escola Vinícius de Moraes). Os alunos lembram-se de vovó Catarina com carinho. Relata um aluno: “Quando esses fugiam das aulas para ficar na pracinha, dona Catarina gritava lá da escola para que voltassem às aulas. Depois do terceiro chamado ela ia buscá-los educadamente, explicava as normas da escola.Respeitava os alunos e era respeitada por eles. A melhor cena que descreve dona Catarina é quando ela caminhava pela Granja Vianna era cumprimentada por todos. Ela é avó de todos os moradores da Granja Vianna. Ela é avó de todos os moradores de Cotia”.

Na conversa sempre retomava lembranças do senhor Niso Vianna. Um homem generoso,ela dizia. Trazia do seu mosaico lembranças das primeiras freiras que a fazenda recebeu para prestarem serviço social. O cuidado que o senhor Niso Vianna tinha com os funcionários da fazenda ela também relatou. Essas lembranças são um pedaço da memória da vovó Catarina. Memórias que não serão destruídas. Memórias que serão sempre lembradas. Gente com esse jeito da vovó Catarina nunca desaparece. Gente assim deixa saudade.

P S: vovó Catarina se despediu de nós em grande estilo, depois de mais de cemanos de vida. 

terça-feira, 9 de outubro de 2018

ENRICO

Enrico é um menino muito batuta. Batuta mesmo! É igual a todos os meninos da sua idade... Pula daqui para lá, de lá para cá. Não para um segundo sequer! Ele é, também, diferente de quase todos os meninos da sua idade. Ainda bem que somos diferentes uns dos outros. Meu primo Enrico nasceu com síndrome de Down. Ele é supercomunicativo. Comunica-se com os braços, que vão para cima, para baixo e para os lados. Às vezes parece que tem mais de um par de braços, com toda agilidade com que os movimenta. Espevitado. Comunica-se sempre com um belo sorriso largo. Carinhoso. Comunica-se com o corpo. Os seus olhos azuis, quando reparam em alguma coisa, também se comunicam! Os seus avós Lourdes e João Carlos, diante de suas peraltices, correm os olhos cuidadosamente, a cada caminho traçado por ele,com medo de que se machuque. É sempre muito rápido! O que ele quer é se divertir.


Ah! Receber um abraço do Enrico com toda sua espontaneidade recarrega as energias de bons sentimentos. O seu abraço diz tantas coisas... Acolhe... Chama atenção... Pede carinho... Ensina... Como estamos precisando de atenção! Todas as crianças precisam! Até adultos precisam(e muito)! Os seus pais, Fernanda e Eduardo, cuidam de Enrico com muito amor e o defendem dos olhares atravessados. O preconceito é um sentimento de gente medrosa e fraca. Todas as crianças precisam ser defendidas pelos seus pais de forma amorosa. O castigo nunca funcionou como educação, ao contrário, deixa marcas negativas e profundas. E lá vem o meninopulando. Brincando. Sorrindo. Inteligentíssimo. Sendo motivado por aqueles que o cercam carinhosamente. Afinal, ele é só uma criança.


Os seus bisavós, Narciso e Ida, há tempo são estrelinhas. Imagino o quanto eles devem se divertir com o bisneto. Os avós, depois de um tempo, viram anjos... Pulam como criança. Sorriem como criança. Abraçam como criança. Ensinam os netos a gostar da vida. E vem Enrico, se lança no ar e cai suavemente no colo do tio Didio e da tia Ida.seus bisavós. Quem o viu voar no ar não entendeu nada. Nem tudo é para ser entendido. Nenhuma criança merece sofrer preconceito. Criança gosta de brincar.


P.S.: vi um menino outro dia com cara de anjo, em um comercial de uma loja de magazine, na televisão. Adivinhem quem era. Meu priminho, loirinho e sorridente. Brincando de modelo. Seu irmão Benício recebe cada abraço do Enrico de quebrar a costela. Protejam e abracem todas as crianças do mundo. Todas são especiais. Abracem 

terça-feira, 18 de setembro de 2018

NUNCA DESISTA... SEMPRE RESISTA!



No texto que escrevo falo sobre sonhos. Há quase um ano conheci a professora Valéria Leite na bela cidade de Recife, em uma manhã de muito calor! A professora Valéria tentava mostrar seu trabalho –que já há algum tempo queria apresentar –, realizado durante anos em sala de aula, com alunos que apresentavam defasagem de aprendizado. Incansável na tentativa de mostrar aos amigos de profissão o seu jeito de alfabetizar,recebia indiferença. Muitos opinavam sem ao menos ter lido seu projeto,mesmo com toda evidência de fartos registros de sucesso com os alunos, com seu jeito de ensinar as palavras. As autoridades que ela procurava para mostrar seu trabalho não a recebiam. Estavam sem tempo. Recebeu alguns “nãos” de subalternos e afirmativas de que esse projeto não tinha futuro.

Como alguém que trabalha com educação não sabe ouvir? Como um educador opina sobre um projeto sem ter lido? Muitas portas se fecharam para a professora Valéria Leite, na sua tentativa de mostrar seu jeito peculiar de alfabetizar seus alunos.Mesmo diante das negativas, ela não desistiu da ideia de que aquele projeto tinha que ir além da sua sala de aula. Agora, imaginem quantos projetos em escolas neste país estão acontecendo e não são vistos. Desprezados! A falta de vontade política não deixa. A burocracia burra não deixa. Muitos não querem mudar essa situação para manter seu statusquo. Privilégios. Não pensam na comunidade, pensam em si. Mesmo assim, milhares de professores não desistem! A Valéria Leite está entre esses professores.

Prestem atenção nesta história aparentemente fantasiosa, mas verdadeira. Uma amiga de Valéria contou a um amigo sobre a luta da professora para mostrar seu trabalho sobre alfabetização. O sujeito se interessou pelo projeto e disse que tinha uma pessoa que poderia ajudá-la. Aí é que eu entro nessa história. Fui a Recife conhecer a professora Valéria. Eu a ouvi atentamente por um bom tempo.Ela falava de seu projeto com entusiasmo e alegria. Os olhos brilhavam. Olhos também que umedeciam diante das recusas que recebera. Nunca desistiu.Trocamos ideias de como poderia materializaraquele seu trabalho. Aceitou algumas sugestões.Saí de Recife com a tarefa de transformar aqueles registros de trabalho em dois livros: o livro do professor e o do aluno. Vencemos a primeira etapa. Entreguei o trabalho depois de quase um ano. Foi gratificante.


                                                              Professora Valéria Leite 
P.S.: não posso me esquecer de citar a professora Fernanda Cardoso que, durante esse tempo, foi companheira de Valéria Leite nessa luta para ela ser reconhecida; também, agradecer o companheirismo do marido da professora Valéria, o senhor Valmir, que sempre caminhou ao seu lado. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

MAS MUSEU SÓ TEM COISA VELHA, PÔ

Quem não ouviu frases depreciativas em relação a museus? Ouvimos muitas! “Quem gosta de coisa velha é museu.” Talvez essafrase seja a mais conhecida de todas, mas háainda outras pérolas que evidenciamum pouco da nossa ignorância. Outra frase conhecida: “Nossa, está parecendo coisa de museu”. E assim vai... São frases que depreciam a memória e a velhice de uma tacada só!

O Museu Nacional, que se localiza na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, estava caindo aos pedaços há décadas. A última reforma, de verdade, que aconteceulá foi em 1955. As frases acima cunhadas têm sentido quando olhamos o quanto os museus recebem de verbas públicas para serem mantidos. São valores desprezíveis que desconsideram todo o valor cultural que esses guardam. Os nossos museus estão realmente velhos. Descuidados! Outros incêndios virão, com certeza, e outros museus serão destruídos.

Agora, depois da tragédia,começam a aparecer verbas que antes não existiam. Discursos velhos reaparecem com roupagem nova, até a tragédia desaparecer da mídia. Aí, tudo continua velho e caindo aos pedaços, inclusive alimentando nossa mentalidade nacional de que museu é coisa velha. Coisa velha não merece nenhum respeito. Não merece atenção.

Museus servem para educar.

Na década de 1990, levamos centenas de alunos de escolas estaduais do Estado de São Paulo para conhecer algumas cidades históricas de Minas Gerais. Estudo de campo comum grupo de professores de disciplinas diferentes e que envolvia o Ciclo do Ouro, com cada disciplina trabalhando um tema. Um trabalho sensacional. As falas de todos os guias que nos acompanhavam denunciavam o abandono dos museus e igrejas históricos de Minas Gerais. Peitorais barrocos de igrejas e casarões caindo ou pendurados diante do descaso.

Os olhos dos nossos alunos brilhavam diante das obras de Aleijadinho, em Congonhas. Brilhavam quando se defrontavam com as igrejas históricas imponentes,carregadas de memórias. Quando viajamos, além da aparência daquelas paredes antigas,descobrimos que aquilo que achávamos velho não era tão velho assim. Rica em cultura,ali,naquela estrutura,está estampada a escravidão que dizimou muitos de nós. Lá,naquelas portas, esculturas e janelas coloniais estavam estampados a ganância e o poder,conseguidos a qualquer custo. Vidas ceifadas. Se, de fato,quisermos construir uma memória nacional, não podemos continuar achando que museu é só passado e cheio de quinquilharia.

Ao visitar o Museu do Ipiranga, em São Paulo,com alunos de escolas estaduais,fomos avisados pelos responsáveis da instituição, na época, que não podíamos conhecer o jardim –o qual é semelhante ao jardim do Palácio de Versalhes –, pois poderíamos ser atacados por trombadinhas. Absurdo! Depois de tantas visitas escolares a espaços culturais e históricos, constatávamos que os alunos estavam diferentes. Estavam mudados, transformados. Viam museus e patrimônios históricos com outros olhos. Conhecimento. O “velho” era trocado pela vontade de descobrir aquele mundo que estava ali e trazia tanta informação. O fogo apaga nossa memória para sempre! Qual o próximo museu a pegar fogo no Brasil? Como faz falta educação de boa qualidade!


P.S.: “...velho é seu passado!”

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

TRÊS HISTÓRIAS DIFERENTES


Maria todos os dias levantava às três da madrugada e preparava a mesa de café para o marido, ele saía para trabalhar mais tarde do que ela. Na mesa de café deixava arrumada a comida de que eles gostavam. O filho mais velho saía bem cedo para a escola, depois do pai, de café tomado. A filha caçula dormia até mais tarde. O horário da escola era depois do meio-dia. Maria Aparecida tinha grande orgulho em ver seus filhos indo para a escola, oportunidade essa que ela não teve. Valorizava o estudo. Gente correndo atrás do seu sonho... Há anos não sabia o que era descansar no final de semana, o dinheiro extra que entrava com o trabalho de sábado e domingo era para bancar o estudo das crianças, comprar livros e outras coisas de que eles precisavam para manter a qualidade do ensino. Ela queria uma vida diferente da sua para os filhos. Ela mal sabia ler. O seu sonho era que os filhos fizessem uma faculdade. O sonho maior era o dia em que ela entregaria o diploma para suas crianças.

Maria não reclamava de cansaço...

Antes de sair, andava pela casa como se estivesse com os pés nas nuvens para não acordar o marido e ou os filhos. Dava um beijo de despedida em cada um, todas as manhãs. Religiosamente. Depois desse gesto de carinho, Maria ia para a cozinha tomar café meio amargo e comer pão com manteiga, preparados a seu gosto. Era mulher vaidosa. Trinta minutos antes de ir para o ponto de ônibus, colocava-se diante do espelho para ficar bonita. O batom discreto nos lábios não podia faltar. Os cabelos bem penteados tomavam-lhe mais tempo. Impecável. Faltando quinze minutos para as quatro da manhã saía em direção ao ponto de ônibus que ficava a uma quadra da sua casa. Aquela manhã de quarta-feira seria diferente de todas as outras.

Se ela soubesse que sua rotina seria quebrada daquele jeito, não teria saído de casa. Talvez faltasse ao emprego, algo nunca feito.

Ao caminhar alguns metros da sua casa, foi seguida por um homem. A rua era escura. Medo. Maria acelerou os passos! Poucos segundos depois, o homem caminhava a seu lado e conversava naturalmente. Mais alguns minutos, ele e ela caminhavam em sentido contrário ao seu destino. Desapareceram na escuridão da rua.

No horário em que ela estava acostumada a chegar em casa, não chegou! Passado um bom tempo o marido, aflito, o calafrio tomando conta do seu corpo, pensou que alguma coisa tinha acontecido. Os filhos choravam pensando em algo pior. Dor na alma. O marido ligou para a patroa de Maria, que confirmou que ela tinha faltado ao trabalho naquele dia. O desespero bateu nele e nos filhos. No dia seguinte, foi à delegacia e abriu boletim de ocorrência. Com os familiares e amigos, começou uma busca incansável pelo paradeiro de Maria, sem sucesso. Três dias depois o celular tocou. Uma voz forte lhe disse para comparecer à delegacia. O delegado queria falar com ele. Gelo. A imagem de uma câmara instalada em uma casa vizinha mostrou Maria caminhando com um homem com uma faca encostada em suas costas, do lado direito. O marido chorou copiosamente. Entrou em pânico ao pensar que alguma coisa ruim poderia ter acontecido a ela.

No altar, a vela de sete dias que Maria acendera à Nossa Senhora da Aparecida ainda queimava suavemente. De repente, apaga...

Mais uma estatística...

Uma semana depois, o corpo dela foi encontrado enterrado na cozinha de um homem que morava na mesma rua da sua casa. Ele tinha saído da cadeia há uma semana, onde passou alguns meses cumprindo pena por estupro e homicídio. O sonho de Maria acabou naquela madrugada fria...

Outra história...

Fernando, dias depois de completar dezesseis anos, conseguiu seu primeiro emprego. Muita felicidade. Mesmo antes de receber o primeiro pagamento, já fazia planos de comprar a roupa dos seus sonhos. Comprar um celular da hora. Comprar um tênis legal. Sonhos... Fernando não cabia em si! À noite, na escola, comentava com os amigos sobre o emprego. Falava desse mundo novo com entusiasmo. Planos. Quando terminasse o ensino médio, faria uma faculdade. A empresa dava oportunidade para quem estudasse. Vibrava! Em alguns casos ela até mesmo ajudava a bancar parte dos estudos. Fernando se destacava entre os amigos da escola pela amizade sincera. Um menino educado. Um sorriso maroto. Namorava Marisa e, depois do trabalho arrumado, já falava em casamento.

Tempos depois, de roupa nova e celular bacana, Fernando e um amigo caminhavam para o ponto de ônibus ao fim de um dia de trabalho. Alegre, ele falava, gesticulando, sobre seus projetos de vida... Conversava de futebol também, um papo descontraído sobre o time do coração. Sem que eles percebessem uma moto se aproximou com dois ocupantes que, aos gritos, com arma em punhos, dizem: “Perdeu! Perdeu! Perdeu! Passa o celular, babaca. Passa tudo, filho de papai!”. O amigo de Fernando entregou o tênis e Fernando não hesitou em nenhum momento em entregar o celular. Ele sempre foi muito tímido e, com o nervosismo pela cena de violência, esboçou um sorriso trêmulo no canto da boca. O carona da moto, irritado, aos gritos, diz: “Você está me tirando, meu!”. Ele atira no rosto de Fernando, que cai no chão. O amigo, desesperado, corre em busca de ajuda. Os bandidos saem com a moto em alta velocidade como se nada tivesse acontecido.

O Samu chega quinze minutos depois do ocorrido, dando os primeiros socorros. Encaminham Fernando para o hospital mais próximo, aonde ele chega com vida, ainda! Há esperança. Horas depois, a notícia que ninguém queria ouvir, o jovem foi a óbito. A família chora desesperada. A mãe, aos gritos, pergunta a Deus: “Por que meu filho?”.

A última história...

Amor eterno. Uma festa de casamento luxuosa. Mais de mil convidados. Diziam que eram almas gêmeas, que um havia nascido para o outro. Que casal lindo! Maravilhoso. Mariana e Roberto se conheceram em uma festa na casa de uma amiga. Ele, com um bom emprego e rico. Ela, advogada e bem de vida. Financeiramente. Em menos de um ano se casaram. Em nome do amor ele queria que ela deixasse a profissão liberal que exercia. Ela hesitou no início e, depois, deixou de trabalhar para atender o desejo do marido. Tudo em nome do amor.

Com o tempo, ele começou a chegar tarde em casa. Ela, em silêncio, resignada, queria apenas ser feliz. Acreditava piamente no amor perfeito.

Um dia, na casa de amigos, em um churrasco de domingo, ele começou a duvidar da sua fidelidade. Sem que ela compreendesse o porquê, ele a acusava de estar “dando bola” para o marido da amiga. Mariana ficou em silêncio para evitar escândalo, não entendia o motivo daquele ciúme doentio. Ela se dedicava inteiramente àquele casamento. As brigas se multiplicaram. O sorriso de alegria do início (que deixava muitos casais com inveja) foi trocado pelo rosto fechado. O andar com o olhar voltado para o horizonte, agora rumava para o chão. Em uma tentativa frustrada quis falar sobre a crise do casamento. Ele foi rude e disse, aos gritos: “Tem que ser do meu jeito! E nem pense em se separar de mim. Não seja nem louca em me deixar. Você não sabe do que eu sou capaz!”. Diante da agressão verbal, ficou paralisada. Um dia Roberto chegou em casa e disse: “Você não presta pra nada mesmo!”. Que mudança aquela nele. O seu mundo desabou. O sapatinho de cristal de cinderela naquela noite trincou. Sem que ele percebesse, ela arrumou as roupas e foi para a casa da mãe. Envergonhada.

Lá, com sua mãe, não teve coragem de dizer o que acontecia em sua casa. Sentia-se profundamente humilhada. Culpava-se pelo fim do casamento. Os pais sentiam que alguma coisa não estava bem e escolheram a discrição como apoio. No dia seguinte, decidida, saiu bem cedo para recomeçar sua vida. Com o rosto maquiado e bem vestida, ao dar o primeiro passo naquela manhã para atravessar a rua, foi atropelada por um carro em alta velocidade. Seu corpo foi arrastado por cem metros. No enterro, o marido chorava e lamentava a morte da mulher. O amor da sua vida. Mas sua máscara não demoraria a cair...

Uma semana depois da tragédia, os policiais que investigavam o caso de Mariana descobriram que o carro que a atropelou era de Roberto. Outra prova consistente contra ele: o atropelamento estava gravado na foto tirada pelo radar inteligente. Não havia nenhuma dúvida de quem era realmente o criminoso. Antes das provas, Roberto tinha sido ouvido pela delegada e saído pela porta da frente da delegacia. Desapareceu depois de provada sua culpa pela morte da esposa. Ele ainda não foi encontrado. Livre. Um final trágico.

Tantas outras histórias que não serão contadas e nem sequer choradas.